Em 1887, o Senado Imperial recebeu a proposta de criação da Província do Rio Sapucahy, unindo o Sul de Minas ao Vale do Paraíba paulista, com capital em Taubaté e porto em Ubatuba. Alvo de deboche da imprensa, a ideia da bilionária e populosa nova unidade se esfarelou pouco antes do Golpe Republicno
Texto : Jan Theóphilo
Corria a tarde de 5 de outubro de 1887 na Guanabara, quando o médico Joaquim Floriano de Godoy, senador pela província (atual estado) de São Paulo, subiu a tribuna da casa, onde hoje é a Faculdade de Direito da UFRJ e surpreendeu seus pares. Em um longo discurso ele defendeu a criação de uma novíssima unidade federativa: a província do Rio Sapucahy, que juntaria o Sul de Minas Gerais ao então Norte de São Paulo, com capital em Taubaté e porto em Ubatuba. O motivo declarado era eminentemente prático: unir duas regiões que já comerciavam entre si, uma fornecedora de alimentos, outra de café para exportação, numa só unidade política forte o bastante para prosperar sozinha. O resultado, no entanto, foi zero. Nem os mineiros, nem os paulistas, nem a imprensa da época levaram a ideia a sério, e o Rio Sapucaí morreu no papel antes mesmo de o Império morrer de vez, dois anos depois.
Godoy fez a lição de casa: levantou população, renda, hectares de terra produtiva, extensão de rios. Fez até questão de listar os prédios públicos de Taubaté como prova de que a cidade já tinha estrutura de capital. Faltou apenas, ao que tudo indica, perguntar a alguém em Minas ou em São Paulo se essas províncias queriam ser cortadas ao meio.
A história da Província do Rio Sapucahy é, no fundo, uma pequena aula sobre um Brasil que, no fim do Império, discutia simultaneamente o fim da escravidão, o futuro da monarquia e a possibilidade de recortar suas próprias fronteiras internas, como se um mapa novo pudesse resolver problemas que eram, na raiz, sociais e políticos. A província do Rio Sapucahy nunca existiu fora do papel, mas o episódio permanece como retrato fiel de como projetos ambiciosos podem nascer com toda a lógica do mundo e morrer, ainda assim, por falta da única coisa que nenhuma estatística compra: vontade política.

Em 1887 o senador Joaquim Floriano de Godoy apresentou projeto para criar a Província do Rio Sapucaí?
Sim. Segundo o acervo digital do Senado Federal, que preserva o próprio texto original do projeto, Godoy, então senador do Império entre 1873 e 1889, apresentou à Casa, o projeto de lei para a criação da Província do Rio Sapucahy , que reuniria territórios do Sul de Minas Gerais e do Norte de São Paulo. O documento foi publicado no ano seguinte, em livro de 261 páginas pela editora Laemmert, conforme o perfil do senador no site do Senado.
O historiador Angelo Rubim lembra que o momento escolhido por Godoy dificilmente poderia ser mais inoportuno. O país vivia a reta final do processo abolicionista e a crise política que levaria ao golpe da Proclamação da República dois anos depois, o que ajuda a explicar por que uma proposta de reengenharia territorial tão ambiciosa passou quase em silêncio pelos jornais da capital.
Quem era Joaquim Floriano de Godoy?
O senador nasceu em São Paulo em 4 de janeiro de 1826 e morreu em 20 de novembro de 1907. Segundo o perfil oficial do Senado Federal, era médico formado pela Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, foi deputado geral entre 1869 e 1872, presidiu a província de Minas Gerais de 1872 a 1873 e ocupou uma cadeira no Senado do Império de 1873 até a Proclamação da República, em 1889. Não era um doido de pedra. Foi um político habilidoso o bastante para após o Golpe Republicano ser nomeado presidente (governador) da província (estado) do Rio Grande do Sul.
Dá até para dizer que era um progressista, Godoy votou a favor da Lei do Ventre Livre, da Lei dos Sexagenários e da Lei Áurea, e se posicionou contra a ordem escravocrata, além de apoiar o manifesto republicano que defendia a separação entre Estado e Igreja. Era também autor de outros estudos estatísticos, como um levantamento sobre a própria província de São Paulo produzido para representar o Brasil na Exposição Industrial de Filadélfia, em 1876.

Qual era a lógica desse projeto?
Ao menos no papel, não era uma maluquice completa. A espinha dorsal da proposta repousava sobre um profundo sentimento de abandono regional. Tanto os produtores do Sul de Minas quanto os fazendeiros do Vale do Paraíba paulista sustentavam que suas imensas contribuições tributárias eram drenadas para as capitais, Ouro Preto e São Paulo, sem que houvesse retorno em obras públicas, estradas ou investimentos robustos em infraestrutura.
Segundo historiadores, a proposta se apoiava na complementaridade econômica entre as duas regiões: o Sul de Minas era grande produtor de alimentos, enquanto o Norte de São Paulo (o atual Vale do Paraíba) vivia do café destinado à exportação. As duas áreas já compartilhavam bacias hidrográficas importantes, os rios Sapucahy e Paraíba, e Godoy argumentava que a fusão criaria uma unidade territorial coesa, rica e autossuficiente, ligada ao litoral por ferrovia até um porto próprio, a ser construído em Ubatuba.
Havia também um argumento de escoamento logístico. O plano previa que a produção das duas regiões seguisse por estrada de ferro até o litoral norte de São Paulo, conectando-se à Estrada de Ferro Central do Brasil, o que, na cabeça do senador, tornaria a futura província uma potência exportadora com vida própria, sem depender da intermediação de São Paulo ou da Guanabara.
A nova província seria, portanto, uma das mais ricas do Brasil?
O projeto previa exatamente essa combinação territorial. A nova província reuniria 22 comarcas mineiras, entre elas Itajubá, Lavras, Passos e Baependi; e 13 de São Paulo, incluindo Taubaté, Jacareí, Guaratinguetá e Ubatuba. Eram regiões que, na década de 1880, estavam entre as áreas mais dinâmicas da economia brasileira graças à produção e exportação de café.
Diversos estudos sobre a economia no Império indicam que o Vale do Paraíba paulista e o sul mineiro concentravam grande riqueza agrícola, circulação de capitais, infraestrutura ferroviária em expansão e significativa arrecadação de impostos. Por isso, muitos historiadores consideram plausível afirmar que, caso tivesse sido criada, a Província do Rio Sapucahy estaria entre as unidades mais ricas do país naquele momento, embora comparações precisas de arrecadação e produto econômico sejam limitadas pelas poucas estatísticas da época.

Qual seria o tamanho dessa nova província (ou estado)?
Os dados apresentados por Godoy apontam para uma área de 193.170 quilômetros quadrados, e uma população pouco acima de um milhão de habitantes: são números que, à época, colocariam a hipotética província entre as unidades mais populosas do Império e dona de uma representação expressiva no Parlamento. Em termos territoriais e populacionais, a província seria maior e mais habitada do que nações europeias de médio porte na mesma época.
Por que a escolha de Taubaté para ser a capital?
A escolha de Taubaté não foi casual. Fundada pelo bandeirante Jacques Felix, Taubaté era considerada a primeira localidade estruturada da região, reunindo uma infraestrutura urbana considerada adequada para abrigar a administração de uma nova província. A cidade possuía grande relevância histórica e econômica, tendo se consolidado como um dos principais centros da economia cafeeira nacional. Na justificativa oficial do projeto, Godoy destacava que a cidade “possue já quasi todos os edificios necessarios a installação da capital da nova provincia; diversos palacetes e optimos predios para todos os serviços da administration; boas igrejas; estabelecimentos notaveis de industrias; illuminação a gaz; linhas de tramsways, etc.”

Como a imprensa recebeu a proposta?
A recepção da imprensa foi de um deboche implacável. Godoy foi alvo de “violentos ataques” da mídia e do governo paulista. A imprensa chamou o senador de sonhador, entre outros adjetivos. Para se defender das críticas e justificar o projeto, Godoy publicou, em 1888, o livro “A província do Rio Sapucahy e o jornalismo na província de São Paulo”. O tom de deboche e desdém com que a proposta foi tratada revela que, para a elite política e intelectual da época, a ideia de uma nova província no Vale do Paraíba era vista mais como uma aventura pessoal de um político ambicioso do que como um projeto viável.
O jornal Correio Paulistano, em edição de 11 de novembro de 1888, resumiu o sentimento geral ao afirmar que a ideia era infeliz e não encontrava apoio nem na província, nem na região que o projeto pretendia beneficiar. Nem a imprensa taubateana, cidade que mais teria a ganhar como capital, tratou o assunto como algo sério.

No fim das contas, ou melhor, do Império, o projeto chegou a ser aprovado?
Na verdade, ele não chegou nem a ir à votação. Apesar dos esforços defensivos de Godoy, as forças políticas de São Paulo e Minas Gerais no parlamento imperial se mobilizaram para conter o avanço da matéria nas comissões parlamentares, impedindo que a divisão territorial seguisse para votação definitiva no plenário.
Apesar de todos os números e justificativas apresentados por Godoy, a proposta não tinha a menor chance de prosperar em um Senado dominado por interesses regionais contrários ao desmembramento de São Paulo e Minas Gerais. O projeto morreu no papel, e a Província do Rio Sapucahy nunca saiu do arquivo.
Além da resistência regional, o contexto político era extremamente instável. Apenas dois anos depois, em 1889, a Monarquia seria derrubada e o regime republicano reorganizaria completamente a estrutura federativa do país, transformando as províncias em estados. Nesse cenário, o projeto do Rio Sapucahy acabou sendo abandonado e permaneceu apenas como uma curiosidade histórica.
FONTE : https://agendadopoder.com.br/a-sensacional-historia-do-estado-mais-rico-que-o-brasil-nunca-teve/

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