Ubatuba é considerada uma das rotas nacionais do birdwatching

 

Silenciosa ao amanhecer, ainda sem o barulho das mochilas na orla ou o trânsito que o verão costuma trazer, Ubatuba desperta diferente nas trilhas. Ali, no encontro da Mata Atlântica com o mar, o que guia a caminhada não é o sol, mas o canto — e quem conhece esse som sabe reconhecer que poucas cidades no país abrigam tamanha diversidade. São mais de 450 espécies de aves catalogadas, segundo levantamentos do Parque Estadual da Serra do Mar, número que coloca o município entre os principais destinos de birdwatching do Sudeste brasileiro.

Os melhores pontos de observação se distribuem como capítulos naturais: Núcleo Picinguaba, Camburi, Lagoinha, Itamambuca e Almada. Nesses trechos, o visitante encontra desde espécies comuns até outras que exigem paciência e sorte. Guias especializados — muitos nascidos e criados na região — conduzem pequenos grupos por trilhas onde o tempo anda devagar e o olhar atento é indispensável para notar o tiê-sangue pousado sobre uma bananeira ou o brilho discreto do beija-flor-de-fronte-violeta, espécie emblemática da região.

Turismo cresce — e se adapta

Nos últimos anos, o birdwatching deixou de ser nicho e passou a movimentar a economia local.
Hotéis e pousadas ajustaram café da manhã antecipado, disponibilizaram lanches para expedições e criaram roteiros próprios em parceria com condutores ambientais. A demanda vem de turistas brasileiros e estrangeiros — muitos de países onde a observação de aves faz parte da cultura de viagem, como Estados Unidos, Inglaterra e Alemanha.

Operadoras locais seguem protocolos de preservação e atuam com grupos reduzidos, evitando impactos na fauna e na vegetação.

“É uma atividade que ensina a enxergar o ambiente com menos pressa. O turista chega para ver pássaro e sai falando de floresta, de preservação. Esse é o ganho", comenta um guia consultado pela reportagem.

Conservação que vai além do binóculo

A observação de aves não é apenas passeio — é ferramenta de ciência. Projetos como “Aves de Ubatuba”, o Instituto Neotropical e ações educativas no Parque Estadual da Serra do Mar monitoram espécies, registram migrações e promovem oficinas de fotografia e educação ambiental. A participação de moradores cresce em mutirões, anilhamento e observação comunitária.

Espécies ameaçadas de extinção, como a jacutinga e o gavião-pomba, reforçam a importância das unidades de conservação que protegem mais de 80% do território do município. Em cada trilha, o visitante entende que preservar não é conceito — é prática cotidiana.

Ao fim do dia, quando a luz dourada atravessa as copas e o canto diminui, Ubatuba se revela para quem soube escutar. O espetáculo não está apenas nas praias cheias do verão, mas no voo sutil que corta a mata. Um convite silencioso — e permanente — para voltar.

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