Projeto Tamar de Ubatuba é referência nacional em conservação marinha

 



Trabalho desenvolvido no litoral norte paulista ajuda a proteger cinco das sete espécies de tartarugas marinhas do mundo; atualmente seis estão em algum nível de ameaça de extinção

Presente no planeta terra há mais de 100 milhões de anos, desde a época dos dinossauros, a tartaruga marinha desempenha um papel fundamental para o equilíbrio dos oceanos. No entanto, desde o século 19, a ação humana tem impactado a existência desses animais pré-históricos.

A necessidade de combate à destruição dessas populações e o incentivo à conservação foi o que motivou a oficialização do Dia Internacional da Tartaruga Marinha, celebrado em 16 de junho. A data foi escolhida por conta do dia do nascimento do biólogo Dr. Archie Carr. Ele é considerado o "pai" das tartarugas marinhas por sua atuação pioneira na pesquisa e conservação desses animais em uma campanha internacional.

Atualmente, seis das sete espécies de tartarugas marinhas no mundo correm o risco de desaparecer em um futuro próximo. Todas estão incluídas em listas de ameaça de extinção em nível global pela União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN) e pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio/MMA).

As sete espécies são: Tartaruga-de-kemp (Lepidochelys kempii), Tartaruga-de-casco-achatado (Natator depressus), Tartaruga-verde (Chelonia mydas), Tartaruga-cabeçuda (Caretta caretta), Tartaruga-de-couro (Dermochelys coriacea), Tartaruga-de-pente (Eretmochelys imbricata), Tartaruga-oliva (Lepidochelys olivacea) - sendo as últimas cinco presentes no litoral brasileiro para alimentação e desova.

Apesar do estado crítico, esforços contínuos de ambientalistas e organizações comunitárias de conservação têm gerado bons resultados. No Brasil, por exemplo, a Fundação Projeto Tamar se destaca garantindo a preservação de milhões de tartarugas em parceria com a comunidade.

Conservação

Criada na década de 1980, a Fundação Projeto Tamar nasceu com a missão de proteger as espécies de tartarugas marinhas presentes no país. Nos primeiros anos, os esforços concentraram-se na proteção das áreas de desova, dos ninhos e dos filhotes, especialmente diante da captura de fêmeas adultas e da coleta de ovos para consumo.

Desde 1998, o consumo, caça e comercialização de carne de tartaruga no Brasil são proibidos por meio da Lei federal nº 9.605/1998 (Lei de Crimes Ambientais), que prevê sanções e penas para captura, matança, coleta de ovos e distúrbios de habitat da fauna silvestre.

Ao longo das últimas décadas, a atuação da fundação se ampliou para outras frentes, incluindo a conservação das áreas de alimentação das tartarugas. Em Ubatuba, por exemplo, o trabalho é voltado principalmente à redução das capturas acidentais na pesca.

Ponto estratégico

Todas as cinco espécies de tartarugas marinhas encontradas no Brasil são protegidas pela Fundação Projeto Tamar. Segundo Henrique Becker, coordenador de Pesquisa e Conservação da unidade de Ubatuba, o Litoral Paulista funciona como uma importante área de alimentação e desenvolvimento desses animais.

"As águas do Sul e Sudeste são mais frias e ricas em alimento. Muitas tartarugas passam parte significativa da vida nessas regiões para crescer e se alimentar antes de seguir suas rotas migratórias", explica.

Embora as áreas de reprodução estejam concentradas no Nordeste brasileiro, o Estado de São Paulo ocupa posição estratégica na proteção das espécies, especialmente por meio das pesquisas e ações desenvolvidas pelo Projeto Tamar em Ubatuba.

Um dos diferenciais da região, segundo Becker, é a construção de parcerias com pescadores. "A partir da troca de conhecimento e da realização de pesquisas conjuntas, foi possível desenvolver estratégias para reduzir a mortalidade dos animais sem comprometer a fonte de renda dos pescadores e a atividade econômica da região", conta.

Uma dessas iniciativas identificou que cerca de 80% das capturas de tartarugas-verdes ocorrem durante o dia, enquanto a maior parte dos peixes é capturada à noite. Com base nesses dados, os pesquisadores passaram a orientar a instalação das redes em horários que diminuem significativamente o risco para as tartarugas.

O resultado do trabalho é expressivo. Apenas na região, cerca de 14 mil tartarugas capturadas acidentalmente por pescadores foram devolvidas ao mar desde a década de 1990, graças à cooperação entre a comunidade pesqueira e o Projeto Tamar em Ubatuba.

Ameaças

Atualmente, a captura acidental na pesca continua sendo uma das principais ameaças às tartarugas marinhas em escala global.

Outro problema crescente é a poluição dos oceanos, especialmente pelo descarte inadequado de resíduos plásticos. As tartarugas podem ingerir esses materiais ao buscar alimento, o que provoca obstruções no sistema digestivo, sensação falsa de saciedade e, em muitos casos, a morte dos animais.

"O problema não é apenas a ingestão ocasional. O plástico permanece no ambiente por décadas ou até séculos, continuando a impactar diversos organismos marinhos", explica Becker.

O biólogo ressalta que a solução não se limita à substituição apenas dos canudos plásticos, embora a medida tenha papel educativo importante. Para ele, é necessário reduzir o consumo de plásticos descartáveis, ampliar a reciclagem, fortalecer a coleta seletiva e incentivar a responsabilidade compartilhada entre consumidores, empresas e poder público.

As mudanças climáticas também são uma ameaça, pois a temperatura da areia influencia diretamente a definição do sexo dos filhotes durante a incubação dos ovos. "Esse é um processo natural que acontece há milhares de anos e nunca foi exatamente um problema. Mas, agora, alterações significativas no clima podem afetar esse equilíbrio natural e gerar impactos ainda pouco conhecidos para as populações de tartarugas", alerta Becker.

Outro ciclo natural impactado é o local de desova. Apesar de passarem a maior parte da vida nos oceanos, as tartarugas marinhas possuem uma forte memória geomagnética de navegação da praia natal, e as fêmeas retornam ao mesmo local para desovar.

Porém, com a ocupação urbana desordenada das áreas de desova, aumenta a poluição luminosa nas praias, o que desorienta os filhotes recém-nascidos. "Em vez de seguirem em direção ao mar, muitos acabam atraídos pelas luzes artificiais, reduzindo suas chances de sobrevivência", explica o biólogo.

Avanços

Apesar dos desafios, o trabalho de conservação vem produzindo resultados importantes. A tartaruga-verde deixou recentemente de ser considerada ameaçada de extinção em avaliações nacionais e internacionais, reflexo de décadas de ações de proteção, monitoramento e educação ambiental.

Ainda assim, Becker destaca que a espécie continua dependente de esforços permanentes de conservação. No Brasil, quatro espécies seguem ameaçadas. "A conservação precisa continuar. Quando protegemos as tartarugas, estamos protegendo todo o ambiente marinho e as demais espécies que dependem dele", afirma.


FONTE :  https://www.al.sp.gov.br/noticia/?16/06/2026/projeto-tamar-de-ubatuba-e-referencia-nacional-em-conservacao-marinha

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